Resistência física de Djokovic e Nadal na longa decisão do Aberto da Austrália não é privilégio de tenistas. Para especialistas, jogadores de futebol são ainda mais exigidos
Foram necessárias cinco horas e 53 minutos para o sérvio Novak Djokovic derrotar o espanhol Rafael Nadal na decisão do Aberto da Austrália em 29 de janeiro. Um dia antes, ele havia precisado de quase cinco horas para superar o escocês Andy Murray. Cansaço e fadiga não derrubaram o nº 1 do mundo, que contra Nadal fez uma partida de alto nível técnico durante todo o tempo em Melbourne. O jogo causou espanto pelo grau de exigência e pela qualidade apresentada pelos dois tenistas, verdadeiros heróis da resistência. Mas isso não faz deles os únicos super-homens do esporte. Apesar de permanecerem menos tempo em campo, jogadores de futebol são bem mais exigidos do que os tenistas, segundo especialistas.
Intensidade do jogo, tipo de piso, tamanho da quadra ou do campo, distância percorrida, tipo de clima e, sobretudo, tempo para o descanso durante a atividade são alguns dos fatores que vão determinar o desempenho do atleta. “Tudo depende da especificidade e dos movimentos. Cada modalidade esportiva tem a sua especificidade. No tênis, o deslocamento do atleta é frontal e lateral, e os tenistas usam muito os quadris. Já no futebol, o jogador dá muitos sprints durante um jogo (distância fragmentada percorrida com mais esforço)”, afirma o fisiologista do América, Dérik Fúrforo.
Segundo o fisiologista Emerson Silami Garcia, diretor da Faculdade de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o esforço de um tenista é menor que o de um jogador de futebol, considerando a dinâmica das duas modalidades. “Os esforços no tênis são sempre curtos, o tenista não permanece por um minuto em um rali, enquanto no futebol uma jogada envolvendo o mesmo atleta pode durar até dois minutos. Claro que dependendo do jogo e da posição. Sem contar que ele percorre distâncias de até 20 metros em alta velocidade. O jogador percorre distâncias maiores com maior frequência cardíaca. Então, ele se desgasta mais.”
O descanso é fundamental para a recuperação do atleta. No futebol, o intervalo de 15 minutos entre um tempo e outro não é suficiente, mas é tolerável, segundo Emerson Silami, responsável pelo departamento de fisiologia do Cruzeiro até 2010. “Mas a intensidade do jogador de futebol, fatalmente, vai cair no segundo tempo. E se estiver muito quente, ele vai voltar para a etapa complementar ainda mais cansado. Por isso, é importante o revezamento, as trocas durante os jogos.”
Há algumas exceções, no entanto. Caso do atacante Neymar, titular do Santos. O jogador disputou todas as competições do Santos na última temporada (Campeonato Paulista, Copa Libertadores, Campeonato Brasileiro e Mundial Interclubes) sem apresentar lesões e mantendo o nível técnico. Mas a idade do jogador é fundamental para a sua resistência – ele completa 20 anos amanhã. “Quem atua em todos os jogos do Campeonato Brasileiro, por exemplo, vai chegar ao fim dele numa condição física muito ruim”, destaca Silami.
No tênis, o atleta tem pequenas paradas durante as partidas, fundamentais para o descanso e a consequente recuperação física, de acordo com o estudioso. “Ele para cerca de 20 segundos entre os pontos e 90 segundos para trocar de quadra, por exemplo. Sem contar os 120 segundos de pausa entre os sets. Essas paradas são suficientes para a reposição de substâncias que são perdidas durante o esforço físico como o ATP/CP.”
O ATP/CP é a energia liberada por reações químicas no músculo e a quantidade armazenada é pequena. Mas é recomposta por oxidação tão logo a atividade é cessada. “Por isso, o tenista leva mais vantagem do que o jogador de futebol. Como o ATP/CP começa a diminuir, no jogador de futebol um outro sistema glicolídico entra em ação para a produção de energia sem a utilização de oxigênio. Consegue-se, assim, um esforço um pouco mais longo, mas que se acumulando em valores altos também causa fadiga. Então, no futebol acaba sendo pior”, justifica.
SEMELHANÇAS Apesar de vários pontos distintos, os dois esportes também têm semelhanças. Embora façam esforços diferentes, jogadores de futebol e tenistas permanecem muito tempo em campo/quadra. Os dois podem ter desidratação por causa do aumento da temperatura corporal, causando fadiga, têm queda de glicogênio muscular (reserva de glicose) e as técnicas de recuperação são as mesmas.
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