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Atleta com paralisia cerebral tentará completar prova de triatlo no DF

Samuel Bortolin se prepara para fazer 750m de natação, 20km de bike e 5km de corrida

postado em 21/04/2017 06:00 / atualizado em 20/04/2017 17:30

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Carolina Malzyner/Divulgação
Para quem deu os primeiros passos sem ajuda de andadores ou muletas somente aos 7 anos, completar uma prova de triatlo, com 750m de natação, 20km de bicicleta e 5km de corrida, parece impossível. Para Samuel Bortolin, entretanto, o sonho está próximo de se tornar realidade. Aos 28 anos, ele busca a meta de completar a prova sprint em uma competição na capital, o Challenge Cerrado, no sábado (22/4).

O baiano nasceu prematuro em um parto de gêmeos. O irmão morreu horas depois do procedimento. Samuel saiu com sequelas. As consequências só foram notadas aos 7 meses, quando a mãe percebeu que o filho não tinha a mesma coordenação motora de crianças da mesma idade. O diagnóstico de paralisia cerebral com quadro espástico grave foi recebido em Brasília. Samuel não possui os movimentos completos das pernas e tem movimentação parcial do braço esquerdo. Nascido e criado em Barreiras (BA), a 650km da capital federal, o garoto costumava vir para a cidade em busca de tratamento.

Apesar das dificuldades, a deficiência não foi um problema até chegar na juventude. “Só na adolescência, eu senti um pouco o peso de ter uma deficiência”, desabafa. Samuel conta que via amigos com namoradas e achava que não seria capaz das mesmas conquistas. “Comecei a ver minha vida de forma diferente e a ter um preconceito comigo mesmo”, conta. Com depressão, ficou cinco meses parado e perdeu os movimentos que havia conquistado com fisioterapia e esforço. “Quando eu me toquei de que estava perdendo a capacidade de andar sem a ajuda de ninguém, resolvi voltar a me movimentar”.

Karla Kimura/Divulgação
Para recuperar o tempo perdido havia duas opções: uma nova cirurgia ou voltar os hábitos antigos. Samuel optou pelo caminho mais longo, com a prática de exercícios físicos. Com musculação, fisioterapia e outros tratamentos, recuperou a confiança e a autoestima. “Foi uma questão de mudança de postura. Comecei a gostar mais de mim e ver que eu podia fazer tudo o que quisesse”, afirma. A ideia de competir veio com a sugestão de um personal trainer que o acompanhava. Samuel passou a praticar corrida de rua, nas distâncias de 5km e 10km. Ao mesmo tempo, começou a fazer duas graduações. Formou-se em direito e educação física. Hoje, é palestrante motivacional.
 
O desafio de participar de uma prova de triatlo foi ideia do próprio Samuel. “Todos os anos, eu me proponho algum desafio. Como estava confortável na corrida, pensei em fazer alguma coisa diferente”. Unir natação, ciclismo e corrida se tornou um suplício. Nadar, modalidade que sempre foi recomendada a ele, virou a parte mais complicada do treinamento. “Meu problema era de técnica mesmo. Nunca consegui evoluir”, aponta. A solução foi procurar um profissional que o pudesse ajudar.

Treino, treino, treino

Samuel entrou em contato com o professor de educação física e natação Thiago Sobutka, 38 anos, pelo Facebook. Thiago aceitou o desafio e os dois passaram a treinar juntos desde setembro de 2016. O professor, que também é atleta de triatlo, reconhece que, no início, duvidou do sucesso da empreitada. “Quando eu cheguei à piscina, vi que Samuel não saía do lugar. Do jeito que ele caía na água, afundava”, relembra. Foi o próprio aluno que não deixou o mestre desistir.

Os treinos e a dedicação de quatro horas por dia ao esporte fizeram com que Samuel antecipasse o sonho de participar de uma competição de triatlo. “A meta que a gente estabeleceu era competir só em setembro, mas como ele está conseguindo fazer as distâncias, antecipamos”, ressalta Thiago Sobutka, que estará ao lado de Samuel na prova, como guia. No simulado realizado no último fim de semana, o professor notou que a principal dificuldade veio da insegurança psicológica durante a natação em águas abertas.

“É comum. Normalmente, o atleta pratica na piscina e, quando vai nadar no lago ou no mar, sente essa insegurança”, conta. Samuel não esconde o receio. “Dá um medo de não colocar o pé no chão, como é na piscina”, define. A ideia é fazer o tempo um pouco mais rápido do que o alcançado durante a simulação, de 3h20. Agora, o desafio é controlar a ansiedade e a expectativa para fazer uma boa prova. “Para mim, o principal é completar a provar e levar essa ideia da inclusão”.

O professor está confiante em um bom resultado. Impressionado, Thiago define a persistência como uma das principais características de Samuel. “Devido às dificuldades físicas, ele tem que fazer um esforço extra nos treinamentos, mas isso nunca foi um problema”, explica, ressaltando que aprendeu muito com o pupilo. “Eu brinco com o Samuel: eu ensino a técnica e ele me ensina como não desistir dos nossos sonhos”, completa.

Depoimento

Carolina Malzyner/Divulgação

“Como costumo dizer em minhas palestras, meus pais saíram do luto e foram à luta. Reprogramaram toda a vida deles e foram ver o que seria possível fazer, nas condições que eles tinham para que eu pudesse melhorar. Muito ela fez com o que aprendia no dia a dia com os profissionais que me tratavam. Algumas coisas, com uma incrível intuição materna. Por exemplo, falaram que eu jamais engatinharia, então, ela me colocava em cima de um lençol, e me arrastava pela casa inteira, acreditando que aquilo iria me estimular. Tudo isso funcionou, e o menino que não engatinharia e nem parava em pé sem apoio aos 7 anos, depois de intervenções cirúrgicas, muita fisioterapia e dedicação dos pais, começou a dar seus primeiros passos.

Tive uma infância incrível, mas na adolescência comecei a ter problemas comigo mesmo, não me amava e não me aceitava. Via meus amigos com namoradinhas, e não me sentia capaz de conseguir aquilo. Com todo esse desgosto pela vida, abandonei minhas fisioterapias, e todo meu tratamento. Fui ao fundo do poço em seis meses. Fiquei de cama por três dias, mal levantava para tomar banho, com encurtamento muscular, perda de músculos e reflexos. Vi que aquele estilo de vida ia me levar à depressão e me fazer ficar numa cama. Reagi. Foi aí que o esporte teve papel fundamental na minha vida: comecei academia, caminhadas e retomei a fisioterapia.

Depois de um tempo, me deram uma ideia bem louca de transformar as caminhadas em corridas, e eu aceitei. Depois de pegar muita experiência como corredor, trabalhando em todos os aspectos minha consciência corporal, em agosto de 2016, me desafiei, e quis começar a treinar para fazer um triatlo. Então, fui em busca de profissionais para me ajudar nesse projeto. Meu planejamento inicial era de fazer uma prova em setembro de 2017, mas com o andamento muito positivo dos treinos e um convite especial da galera do Challenge Cerrado, decidi antecipar um pouquinho esse planejamento.

Escolhi o triatlo porque acho um desafio imenso, e essa harmonia e equilíbrio que o esporte exige fazem com que transcenda para nossa vida pessoal também. Digo que essa modalidade me tornou não só um atleta mais forte, mas evolui como pessoa em um todo. A ideia ainda é fazer um triatlo olímpico. Talvez em 2018, mas não tenho tanta pressa porque sei o caminho que devo seguir, e sei que vou conseguir isso!”

Samuel Bortolin, triatleta e palestrante motivacional