Enquanto os estrangeiros comemoravam a vitória nas provas masculina e feminina, brasileiros tentavam explicar o fracasso na competição, pois ficaram fora dos dois pódios
O dia seguinte à 87ª Corrida Internacional de São Silvestre foi de comemoração para uns e de reflexão e explicações para outros, em especial para os brasileiros, que se mostraram, ao contrário dos africanos, despreparados para a mudança de percurso, o que acabou servindo de desculpa para a maioria dos brasucas, que foram a grande decepção da prova. O vencedor da prova masculina, o etíope Tariku Bekele, de 24 anos, contou que só havia disputado uma prova de 15 quilômetros antes da São Silvestre. “Sou especialista em provas de até 5.000 metros, não na rua, mas em pista. Tive muita sorte. O percurso é muito difícil, e a chuva não ajudou. Estou muito feliz por ganhar essa prova na minha primeira vez correndo no Brasil.”
Ele surpreendeu ainda mais quando disse que não gosta de correr na rua, embora tenha passado a impressão de muita intimidade nesse tipo de competição. “Normalmente, prefiro distâncias mais curtas. Treino para ter velocidade. Esse é o meu foco. Estou treinando para os 3 mil metros do Mundial Indoor, e esse tipo de treinamento me ajudou muito a ganhar.”
Já a queniana Priscah Jeptoo falava da importância da vitória. “Estou muito feliz, principalmente porque esse resultado deve alavancar minha carreira. Quebrei o recorde da prova. A São Silvestre é muito respeitada no mundo inteiro. Vencer com recorde é muito importante e espero conseguir patrocinadores a partir dessa vitória.”
O recorde, porém, é contestado. Muitos experts entendem que houve uma mudança de trajeto e, por isso, começa um novo tempo. As condições da prova mudaram a tal ponto que muitos corredores reclamaram. Por isso, o certo, para essas pessoas, era esperar pela edição de 2012 e, se o percurso for mantido, aí sim, poderá se definir um parâmetro para o tempo de Jeptoo.
Reclamações O que era antes uma subida, a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, e passou a ser uma descida acabou se tornando a grande vilã da São Silvestre, com a mudança do percurso e foco das reclamações e justificavas do fracasso dos brasileiros, que, ao contrário dos africanos, não estudaram o novo percurso. Na véspera da corrida e até dois dias antes, muitos dos quenianos e o vencedor Tariku Bekele percorreram o trajeto, analisando como seria dado cada passo. Os brasileiros não fizeram isso.
O tricampeão Marílson Gomes do Santos confessou, ontem, que chegou a se sentir perdido durante a prova. Disse que estava apreensivo por não saber como reagiria ao novo percurso. “É muito mais rápido.” Para ele, que foi o oitavo colocado e o segundo brasileiro a cruzar a linha de chegada, atrás de Damião de Souza, os africanos conseguiram se adaptar melhor ao estilo da disputa.
Marílson analisou cada etapa do percurso. “O começo foi muito forte e não estou em uma fase tão rápida. Fiz muita força para acompanhar o ritmo e paguei por isso até o fim. Estava cansado desde o quinto quilômetro. Eles largaram muito rápido, parece que já conheciam o percurso. Não tive nem chance de disputar as primeiras posições.” Ele explicou ainda que seu principal foco no momento é a Maratona nos Jogos Olímpicos de Londres e por isso não estava na forma ideal para disputar a São Silvestre.
Já para Cruz Nonata, a melhor brasileira, sexta colocada, o problema maior foi a chuva. “Não desisti em nenhum momento. Uma concorrente passou por mim, mas eu consegui retomar a posição e conquistei a sexta colocação. Ouvia a torcida toda me apoiando, dizendo: “Vamos, você é a primeira brasileira”, contou.
Mas o problema maior foi mesmo a chuva. “Normalmente evito treinar quando está chovendo. Para mim foi novidade. Com chuva forte eu não treino, por terminação do meu técnico.” Já o percurso agradou. “Esse é bem melhor, gostei bastante, até consegui melhorar o meu tempo.”
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