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Megaeventos esportivos se engajam contra desmatamento e emissão de carbono

Copa da Rússia-2018 e Jogos de Tóquio-2020 aprendem com bons (e maus) exemplos do Brasil

postado em 31/10/2017 12:05 / atualizado em 31/10/2017 12:20

AFP/Yasuyoshi Chiba
 Vancouver (Canadá) — Os megaeventos esportivos estão cada vez mais dispostos a comprar a guerra contra o desmatamento e contra a emissão de gás carbônico. Após os Jogos Olímpicos de Londres-2012 e do Rio-2016; da Euro-2016 e da Liga dos Campeões da Europa, os organizadores da Copa da Rússia e da Olimpíada de Tóquio-2020 vivem num vaivém ao Brasil.

As comitivas buscam informações sobre a certificação de produtos responsáveis, que vão desde o papel usado para a impressão de documentos e de ingressos à compra de madeira usada nas construções, áreas de competição e no mobiliário da Vila dos Atletas. Até a organização da Copa Verde se reunirá hoje, às 14h30, no Ministério do Meio Ambiente, em Brasília, para apresentar os resultados socioambientais da edição deste ano do torneio, conquistada pelo Luverdense-MT.

Sede dos Jogos Olímpicos de Inverno em 2010, Vancouver recebeu, no início deste mês, a oitava Assembleia Geral do Forest Stewardship Council — Conselho de Manejo Florestal. Referência mundial na certificação de produtos florestais, o FSC (na sigla em inglês) exibiu, no hall de acesso ao evento, uma bola de futebol e raquetes de tênis de mesa ecologicamente corretas, ou seja, que não agrediram o meio ambiente durante o processo de fabricação.

Diretora executiva do FSC Brasil, Aline Tristão Bernardes conta ao Correio que o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 é o mais empenhado em aprender com as experiências da Rio-2016. Papéis e madeiras usados no evento foram certificados pelo sistema FSC. “No ano passado, uma comissão do governo japonês nos procurou duas vezes, querendo saber as lições aprendidas nessa questão do uso de produtos de origem responsável nas construções. No caso da Copa da Rússia, é mais em relação ao uso de papel”, relata.

O Japão procura, por exemplo, madeira de origem nativa. No vaivém ao Brasil, fez contato com empresas brasileiras por meio da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, que tem uma plataforma de compra e venda de produtos de procedência responsável.

O governo japonês sabe, por exemplo, que o Comitê Rio-2016 assumiu compromisso formal de que usaria 100% de produtos de origem florestal certificada. No entanto, não houve divulgação do percentual atingido. Em Londres-2012, mais de dois terços da madeira do Parque Olímpico e 98% da utilizada na Vila dos Atletas eram certificados.

“Tinha madeira certificada para tudo na Rio-2016, mas houve problema de transparência. O Comitê queria comprar materiais de origem responsável, mas os pequenos e os médios produtores do Brasil não conseguiram competir com os grandes”, reclama Aline Bernardes. “Se você pegar qualquer tíquete dos Jogos Olímpicos, vai ver que o papel foi comprado do Canadá e dos Estados Unidos em vez de valorizar o mercado nacional. Nós somos o segundo maior produtor de papel e celulose no mundo.”

O velódromo é um dos equipamentos esportivos com selo de manejo florestal responsável. Porém, o material usado não foi comprado no Brasil. “A madeira da pista é certificada pela FSC, mas é russa, porque tinha não sei o que, era cheia de especificidades”, recorda. A fachada do Clube de Golfe e os pódios e rampas dos Jogos Paralímpicos eram certificados.

Nos Jogos do Rio-2016, a gráfica da Casa da Moeda também adotou o parâmetro. A instituição imprimiu, por exemplo, os certificados entregues aos atletas. O pódio era de madeira nativa também avalizada, assim como os estojos para a proteção das medalhas. “Essa área de grandes eventos é superimportante para divulgar a marca, mas, principalmente, o impacto que está por trás dela, ou seja, boas práticas”, argumenta a diretora do FSC Brasil.

Eurocopa

O futebol também decidiu declarar guerra ao desmatamento e à emissão de carbono. Os ingressos da Eurocopa-2016 eram certificados. O Comitê Organizador da Copa de 2018 pretende repetir, na Rússia, o exemplo da França. “Há demanda por sustentabilidade. Mantemos uma parceria com o Comitê Organizador de Tóquio-2020 para a certificação dos ingressos, das novas construções, do mobiliário. Foi assim também na última Eurocopa e na Champions League”, diz ao Correio o diretor-geral do FSC, Kim Carstensen.

Diretor-geral da Uefa Events, Martin Kallen acredita que o esporte esteja definitivamente engajado com as questões ambientais. “Eventos de futebol têm um significativo impacto econômico, social e ambiental. Por isso, é importante estabelecer um sistema de gestão sustentável e torná-lo parte integrante do evento. Isso é apenas o início. Melhoramos bastante, mas ainda há espaço para evoluirmos”, pondera.

Na Euro-2016, os torcedores e o estafe da Uefa eram estimulados a utilizar transportes públicos para chegar aos estádios e tinham à disposição uma “ecocalculadora” para ter a dimensão do impacto na emissão de carbono de suas viagens dentro da França.

*O repórter viajou a convite da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá)