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Cruz Nonata supera obstáculos e diz: "Nunca imaginei que iria tão longe"

Ela mora na segunda maior favela do Brasil, o Condomínio Sol Nascente, perto de Ceilândia, e treina em campo de terra batida. Mesmo assim, é uma das melhores maratonistas do país.

postado em 27/04/2013 13:29 / atualizado em 02/10/2014 19:29

Jéssica Raphaela /Correio Braziliense

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Cruz Nonata estava no Aeroporto Internacional de Viena quando percebeu que o voo de volta para o Brasil havia sido cancelado. Não conteve a frustração por ter que ficar mais um dia na Europa. Após estadia de um mês no Velho Continente, onde participou de duas maratonas em busca de índice para o Mundial de Atletismo em Moscou, em agosto, a atleta sentia saudades de casa. Nem as pistas de corrida da Áustria nem o Centro de Treinamento de Jamor, em Lisboa, pareciam mais atrativos do que as ruas esburacadas da segunda maior favela do país, o Condomínio Sol Nascente, onde a medalhista pan-americana mora, em Ceilândia.

Apesar de todas as dificuldades que encontra no Distrito Federal, a atleta, de 38 anos, é uma das melhores maratonistas do Brasil — neste ano, tem a segunda melhor marca do país, 2h35min48, atrás apenas do tempo de Adriana da Silva, a Adrianinha, que correu os 42km em 2h31min44. Os treinos costumam ser no campo de terra batida ao lado do Sesc de Ceilândia. Lá, Cruz observa o contraste entre o imenso azul do céu de Brasília e o marrom avermelhado da terra que pisa religiosamente todos os dias, ao lado do irmão e também atleta Domingos. Quando não vai treinar logo cedo, elege o fim da tarde para a atividade.

Para chegar ao local, a corredora percorre a estrada irregular que liga, em um desenho que lembra um labirinto, a casa construída pelas mãos do marido, Raimundo Nonato de Oliveira, na invasão de Ceilândia Norte, ao campo de terra. O caminho é feito com atenção, já que as ruas do Sol Nascente transitam entre cascalho, grandes poças de lama, algumas crateras e ruelas estreitas demais para abrigar carros, caminhantes e corredores.

Na dúvida, Nonata, tão empenhada em fazer longos percursos no menor tempo possível, prefere andar. “Morro de medo de sofrer alguma lesão e ter que parar de treinar”, afirma, lembrando-se da época em que teve uma contusão na planta do pé, no fim de 2012, e precisou pausar os treinos por mais de três meses. “Foi difícil, porque é a coisa que mais gosto de fazer, mas consegui controlar a ansiedade e me recuperar.” É assim, driblando as irregularidades do asfalto e da vida, que Cruz segue como atleta profissional. Uma carreira que começou tardiamente para o esporte de elite.

Foi apenas aos 30 anos que a piauiense participou da primeira corrida. Na terra natal, Teresina, ela começou a acompanhar os três irmãos, todos corredores, e descobriu que tinha talento. Em 2002, sem nunca ter participado de uma prova de rua, Nonata ganhou a primeira medalha — ouro, logo de cara —, que fica difícil de ser encontrada em meio a tantas outras que guarda em uma caixa rosa na estante de troféus de casa.

A verdade é que ninguém dá muita atenção para aquele prêmio quando percebe a presença de duas brilhantes medalhas de prata do Pan-Americano de Guadalajara, no México, ocorrido em 2011. Cruz conquistou o segundo lugar tanto nos 5.000m quanto nos 10.000m.

O caminho que fez entre a primeira corrida e o pódio Pan-Americano não está muito claro na cabeça da corredora. “Quando eu paro para pensar aonde eu cheguei... Nossa! Fico impressionada, porque nunca imaginei que iria tão longe”, diz, emocionada.


Metodologia
Desde o início da carreira, Cruz treina com o técnico José Alessandro. Ele envia a planilha de atividades para a atleta, que, na maior parte do tempo, realiza o treinamento com o irmão Domingos. A maratonista conta com o apoio do BM&FBovespa, de São Paulo. Esporadicamente, visita o clube de corrida em São Caetano do Sul e aproveita a estrutura, tanto física como profissional, que não tem no DF. “Sou a atleta mais isolada deles, e uma das que mais traz resultados”, comenta.

"Quando eu paro para pensar aonde eu cheguei... Nossa! Fico impressionada, porque nunca imaginei que iria tão longe”
Cruz Nonata

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
Santo de casa faz milagre
A família toda se mostra feliz pelas conquistas de Cruz Nonata. Os dois filhos, Alessandra, 17 anos, e José Alexandre, 19, é que espalharam pela rua onde moram que a “simples dona de casa” é um sucesso como atleta. A partir daí, os vizinhos viraram fãs e passaram a celebrar com festa as conquistas da corredora, além de se sentirem inspirados para a prática esportiva na região sem infraestrutura do DF.

“Ela tem muita força de vontade. Apesar de não ter estrutura nenhuma, nós sempre a vemos correndo por aqui, treinando como possível. É uma vencedora”, comenta a amiga Laurecy Lopes, 37 anos. Após a conquista em Gadalajara, ela e os outros moradores da rua fizeram uma festa na chegada de Cruz.

A mãe da atleta, Maria Alice da Silva, que ainda mora em Teresina, também ficou vidrada na televisão durante o Pan-Americano. Para manter a humildade, ela evita dizer que tem orgulho da filha, mas afirma sentir “muita satisfação” em vê-la bem-sucedida no esporte. O marido de Cruz, com quem é casada há 20 anos, também se mostra reservado na hora de comentar as conquistas da mulher. “Vê-la pela tevê me deixa bem emocionado”, fala Raimundo, como quem sente saudade quando a mulher viaja para competir.

Foi o marido que construiu a casa que tanto orgulha a atleta. Fora das pistas de corrida, Cruz elege o lar como o lugar preferido. Deve ser por isso que a casa, mesmo sem o acabamento, é tão organizada. A família se mudou para o Sol Nascente depois de dividir o aluguel com o irmão dela, Domingos, no centro de Ceilândia. Eles compraram o lote na área e construíram a casa, bem perto da do irmão e parceiro de corrida.

Aliás, é a ele e aos outros dois que ainda moram em Teresina, Raimundo e Valério, que Cruz atribui o sucesso na carreira. “Comecei com o incentivo deles. Se não fosse por eles, não teria nem tirado o pé do Piauí”, agradece a maratonista, que elegeu Chicago como o melhor lugar em que já correu. Para chegar ainda mais longe, ela segue batalhando nas ruas do Sol Nascente. “Às vezes, é difícil, mas eu sei o que quero e luto por isso. Sou capaz de ir mais longe”, conclui, confiante, a piauiense radicada em Ceilândia.