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Conheça a dura rotina dos técnicos que tentam alavancar a carreira em Brasília

Conheça a história de quatro abnegados técnicos que topam qualquer negócio pelo sonho de ser um Luxemburgo, Felipão ou Muricy. Até mesmo o ex-atacante Cláudio Adão tenta um recomeço na cidade

Lorrane Melo - Especial para o Correio - Especial para o Correio

Vagner Vargas - Correio Braziliense

Publicação:

06/02/2012 08:14

Edilson Rodrigues/CB/D.A Press
O futebol é uma cachaça. Quem já jogou e tem uma vida dentro do esporte, não esquece" Eu tenho nome como ex-jogador, mas ter sucesso como técnico é difícil. Tem de ganhar títulos e chegar a um time grande" Cláudio Adão, ex-jogador e hoje técnico do Legião


O inglês Nick Hornby é autor de uma das mais divertidas odes ao futebol, o livro Febre de bola, lançado em 2000. Na sequência, é do próprio Hornby a lista dos cinco melhores empregos do mundo, desta vez em Alta fidelidade, que, ironicamente, não traz nada relativo ao esporte. Bola fora: ser técnico do seu time, trabalhar com o que ama e, em alguns casos, ganhando muito — o que é o sonho da maioria dos brasileiros. Os casos bem-sucedidos existem. Felipão recebe todos os meses R$ 700 mil do Palmeiras, Muricy, R$ 600 mil do Santos, e Luxemburgo R$ 520 mil até ser demitido do Flamengo. Um fim de carreira digno, para quem, na maioria das vezes, não brilhou tanto dentro das quatro linhas. Porém, quem recorre a essa profissão não regulamentada acaba herdando também alguns contras. Afinal, nem todo jogo tem vitória e, hoje em dia, nem estadual segura técnico.

Mas a profissão dos sonhos também pode ser ingrata, ainda mais dependendo da região do país. Longe do eixo Rio-São Paulo, o Distrito Federal não tem um calendário definido e o campeonato local pode até não acontecer devido a confrontos na Justiça por vaga na elite, desrespeito ao Estatuto do Torcedor quanto à definição do regulamento e à intervenção na Federação Brasiliense de Futebol. O salário também é baixo, bem longe do padrão de Felipão. Mesmo assim, o cenário continua atraindo treinadores que sonham em um dia dirigir um grande clube do Brasil. Uma vida nada fácil.

Pelo futuro da prole

Edílson Rodrigues/CB/D.A Press
Quem é ele Nome: Alan George Alencar Data de nascimento: 8/8/1972 Local: Anápolis (GO) Peso: 98kg Altura: 1,88m Clubes que já comandou: Anapolina (GO), Anápolis (GO)
 

As arquibancadas dos jogos do Botafogo-DF estarão mais bonitas nesta temporada graças a três moças de Anápolis. Brenda, Alana e Bruna são filhas de Alan George, o técnico do clube em 2012. O objetivo dele é classificar o time para a Série D e garantir o emprego por mais seis meses. Afinal, precisa pagar a faculdade das três meninas.
As herdeiras não escolheram cursos tão baratos. A mais velha quer ser dentista e a do meio, médica.

“No começo é uma luta, até porque vida de treinador é resultado, mas depois estabiliza”, torce o homem de fé. Católico, o treinador tem sempre um pensamento positivo e conta com a parceria da mulher, pedagoga, na hora de pagar as despesas. Porém, ele não se importa em ficar longe da família tanto tempo. Aliás, são elas que precisam visitar o pai.

Alan seguiu todo o caminho para se tornar um treinador de futebol. Foi jogador, técnico das categorias de base, auxiliar técnico e, finalmente, comandante de uma equipe profissional, começando na Anapolina e no Anapólis. Mas o quintal de casa estava pequeno para o goiano de 39 anos. Mesmo sendo cheio de problemas, ele considera o futebol candango uma porta para o mercado nacional. “O DF tem visibilidade, eu vim buscando isso”, afirma. “E eu procuro estar focado nas condições do clube. O que é extracampo, de federação,
não me interessa”, completa.

E ele acha que está bem servido. Mora em um hotel pago pelo Botafogo-DF, no Gama. Os treinos são realizados no CT do Jaguar, em Brazlândia, e a academia é em Taguatinga. Ele ainda não conhece muito Brasília, mas, com tantas voltas, deve aprender o caminho logo, logo.

 

Professor poliglota

Iano Andrade/CB/D.A Press
Marcos Soares poderia ser dentista. Ele cursou um ano da faculdade de odontologia. Ou até mesmo ter seguido a carreira militar. Estudou nos tradicionais colégios Brasil afora. Porém, o garoto que jogava tênis no Rio de Janeiro sempre quis saber de futebol. Foi um bom zagueiro, com passagens por clubes da Europa e da Ásia.

Mas, devido a várias lesões nos joelhos, se viu obrigado a abandonar precocemente a carreira de jogador e veio parar no futebol candango, graças ao amor. Não pelo futebol, mas por uma mulher que conheceu no bloco Camaleão, no carnaval de Salvador. Marcos tinha 26 anos e jogava em Portugal. Ana Paula morava no Brasil.

Os dois se reencontraram e casaram anos depois e ela, que é advogada, recebeu uma proposta para trabalhar na capital. Ele veio também. E justamente por esse “sacrifício”, ela não pode reclamar muito da profissão do marido, segundo ele.

Afastado dos gramados, Marcos investiu na profissão de treinador. Após ser auxiliar de 12 trécnicos, teve a oportunidade de dirigir o Brasiliense. Hoje, à frente do Sobradinho, time egresso da segundona local, a realidade não é muito diferente da do heptacampeão candango. Aliás, é a mesma de quase todos os outros times candangos. A preocupação é unânime: o que fazer quando o campeonato local acabar?. “A dificuldade de Brasília é o segundo semestre, porque só o Brasiliense, que vai jogar a Série C, tem calendário. Você não tem onde trabalhar,
a não ser nos clubes da segunda divisão.

Então, é complicado, tem que buscar outra fonte de renda”, diz ele, que já teve de usar o diploma de educação física para trabalhar como personal trainer.

Torcedor do Flamengo, Marcos Soares sonha em dirigir um grande clube no Brasil — “sem preconceitos, pode ser até o Fluminense” — ou no exterior. Para isso, estuda muito, principalmente idiomas. Além de ser fluente em inglês e espanhol, o treinador fala francês, italiano e está aprendendo árabe em aulas particulares. 

 

Ilustre recém-chegado

No plantel do Legião, nenhum jogador chama a atenção por já ter se destacado nos gramados. Lá, o grande nome da equipe fica no banco de reservas.

Contratado recentemente para comandar o clube no Campeonato Candango, o ex-atacante Cláudio Adão, com passagens, entre outros clubes, por Flamengo, Santos, Botafogo, Vasco, Fluminense, Corinthians, Cruzeiro e Seleção Brasileira, é a maior atração da equipe. Há pouco mais de uma semana em Brasília, o treinador tenta retomar a carreira interrompida duas vezes. “Passei por vários clubes, como Ceará, CSA, treinei equipes do Peru. Mas me retirei do futebol porque muitos deles não pagavam. Achei aquilo um absurdo e toquei a minha vida. Tem um monte de clube que me deve até hoje”, reclama.

Durante a pausa no futebol, Cláudio Adão foi trabalhar com a mulher, que tem uma produtora de cinema no Rio de Janeiro. Mas ele não aguentou ficar longe do esporte e aceitou o convite do Legião. “O futebol é uma cachaça. Quem já jogou e tem uma vida dentro do esporte, não esquece”, filosofa.

Aos 57 anos, o ex-centroavante sonha alto em relação à carreira no banco de reservas. “Se eu puder chegar à Seleção Brasileira vai ser ótimo”, diz, ciente das dificuldades do projeto pessoal. “A caminhada é muito difícil. Eu tenho nome como ex-jogador, mas ter sucesso como técnico é difícil. Tem de ganhar títulos e chegar a um time grande”, ensina.

Para ele, dirigir o Legião, apesar de estar em um campeonato de pouca expressão, é o primeiro passo para marcar o seu nome como treinador. “Todo campeonato regional no Brasil é bom para aparecer. Lógico que Brasília não é como Rio de Janeiro, São Paulo ou até Goiás, que tem times considerados grandes. É uma competição muito restrita, não passa na tevê, mas já saíram grandes jogadores daqui. Tomara que o futebol do DF cresça”, torce.

 

Cabeça em Goiás

Edílson Rodrigues/CB/D.A Press
Quem é ele Nome: Paulo Roberto Junges Data de nascimento: 7/5/1976 Local: Selbach (RS) Peso: 75kg Altura: 1,80m Clube que já comandou: Crac (MT)

O pensamento de Gauchinho está sempre longe daqui. Não no Rio Grande do Sul, estado onde nasceu, mas no futebol goiano, qualificado por ele como grande.

“É mais organizado, os jogos são transmitidos na tevê, e as premiações são altas. Aqui, a gente nem sabe se vai ter campeonato”, desabafa o técnico de 35 anos, que deixou a mulher e o filho de 7 na capital goiana para comandar o Brasília nesta temporada.

Há três anos, antes de parar de jogar futebol como atacante, ele já pensava em ser treinador. Sabia também que teria de começar por baixo. Na época, como atuava pelo Brasília, conversou com a diretoria e cavou uma possível vaga no banco da equipe — mesmo não gostando de ficar sentado e preferindo o estilo mais enérgico ao lado do gramado.

O filho acha que o pai ainda é jogador de futebol — ele abandonou a carreira porque já estava cansado — e a mulher, que trabalha na empresa de águas de Goiás, apoia a profissão do marido. No entanto, só o vê aos fins de semana, quando o jogo acaba.

“O futebol do DF tem muita dificuldade. São poucos os times que dão condições básicas ao treinador e pagam os salários em dia”, reclama Gauchinho, que já estava contratado desde setembro do ano passado.

E o Brasília, segundo ele, é um desses “bons empregadores”. O time usa o centro de treinamento arrendado do CFZ. O CT oferece refeitório, academia e alojamento aos jogadores. O treinador mora em um apartamento pago pelo clube, em Águas Claras.

“Não vai ser em Brasília que a gente vai ficar rico”, diz. Mas pode ser aqui que ele seja visto por outros times. O objetivo da carreira, ainda curta, é dirigir um grande clube, com uma grande torcida.

E, de preferência, perto de casa.

 

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(3) comentário(s)

Autor:

Lúcio Silva


Tô com o Danilo. No DF tá cheio de bons treinadores formados na cidade. O problema é que a maioria dos dirigentes são desinformados e não conseguem ver isso. Estou com o Marcos Sena e o Humberto. Boa sorte aos demais. Mas confio no pessoal daqui.
Autor:

Celson Pereira


Muda-se jornalistas, mas a linha editorial não. É incrível como o correio só faz matéria para falar mal do futebol do DF!!!
Autor:

danilo santana


POR QUE COLOCARAM SÓ TÉCNICOS DE FORA? O MARCOS SENNA QUE É DAQUI DE BRASÍLIA É JÁ FOI VÁRIAS VEZEZ CAMPEÃO DE BRASILIA COM TIMES JUVENIS E INFANTIL, VÁRIAS VEZES CAMPEÃO DE CEILÂNDIA , COPA AGAP E COM A SELEÇÃO JUVENIL DE BRASÍLIA. VAMOS DAR VALOR EM GENTE DA NOSSA TERRA.

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